quarta-feira, 2 de maio de 2018

MORGANA FADA - MEU VELHO, MEU HERÓI, MEU GUERREIRO! TEXTO 9




MEU PAI

     Era uma manhã de sol,  estava eu em minhas tarefas domésticas,  feliz a ouvir música e cantar enquanto lavava as roupas da casa. A canção era no rádio, ELTON JOHN, sucesso da época e que eu amava ouvir nas  paradas de sucesso das músicas mais tocadas do momento. O rádio era o objeto de amor da minha  casa,  pois não tínhamos outros tipo de som; nossas posses eram poucas, meu pai pedreiro e minha mãe costureira. O que ganhavam mal dava para o sustento da família e as despesas mínimas. Carne? Só comíamos no final de semana. Além do mais,  meu pai durante o inverno ficava quase sem trabalho e nas fase ruíns dele,  era minha mãe quem sustentava a prole.

     Eu não sabia que naquele dia minha vida estaria mudada para sempre. Marcada pela dor e pela agonia de minha família e que meu pai, meu herói e meu guerreiro seria atingido pelas intempéries da vida.

     No portão de minha casa um apito me chamou a  atenção. Fui receber e estranhei uma equipe toda de branco e um carro da saúde que chegara a minha porta, à Rua da Melancolia, número 100 (nome fictício, título que passei a sentir como meu enderêço, desde então!). Fui gentil, abri o portão e ofereci entrada e café. Uma das enfermeiras, creio que a coordenadora da visita, me abordou segura, após sua entrada na nossa sala e com determinação.

     - Já sabe da doença de seu pai, não é mesmo?

     Pega de surpresa e com vergonha por não saber de nada, afirmei com a cabeça que sim. E ela continuou:

     -Ele tem Hanseaníase! Mas está já em tratamento. Se tomar direitinho o remédio todos os dias,  não contagia ninguém! Trouxemos o remédio dele, pois há meses que não vai buscar! Queremos examinar a família para ver se tem mais alguém com alguma mancha.

     Meu sangue gelou em minhas veias! Senti quase que desfalecer. Meu paizinho com essa doença tão estigmatizadora na época: os doentes eram geralmente rejeitados, olhados como miseráveis e abandonados por seus amigos. Não é possivel! Pensei. Por quê ninguém me contou? Eu já fazia faculdade,  inteligente e boa leitora saberia ajudar minha família a enfrentar essa guerra. Por qual motivo  esconderam-me  algo tão grave? Enquanto pensava angustiada,  a enfermeira já fazia meu exame. Eu estava como uma estátua só me movendo a cada solicitação, branca e sem cor nos lábios, pois senti que meu sangue fugira de mim. Felizmente não achou nada no meu corpo. Ficaram de voltar pra examinar as outras pessoas (minha irmã e meu irmão), pois estava sozinha em casa naquele momento.
Entrei em colapso nervoso! Depois que sairam, chorei muito e fiquei aguardando minha mãe com meu pai chegarem,  para saber se tinham  algo a me explicar.

     Nessa época a medicina já descobrira o remédio para a cura da doença, uma sulfa que estabilizava a moléstia, em poucos meses de tratamento, sem sequelas ou contágios, o tratamento mesmo assim eram de longos anos. Alguns para o  resto da vida. E a doença tinha várias fases e tipos. Então dependendo do estágio e do diagnóstico,  o tratamento era diferenciado.

     No Acre, muitas pessoas haviam sido acometidas e o Estado estava com um trabalho muito bom de combate ao  Mal de Hansen, porém nem tudo era tão simples assim: as pessoas saudáveis não sabiam ainda lidar com essa novidade boa da medicina e a simples mensuração  sobre uma pessoa contaminada com a Lepra (a doença fora conhecida com esse termo pesado e estigmatizador) já lhes geraria uma segregação social. No passado, a saúde isolou os doentes em uma espécie de pousada ou colônia rural, onde ficavam separados da família, sem visitas e muito isolamento.  Por isso agora, mesmo  com o tratamento em casa as pessoas ainda tinham muito medo do mal. Talvez por isso meus pais tentaram  proteger-me, escondendo o fato do meu pai estar acometido. Iniciou aí um novo ciclo na minha vida e um novo desafio, dessa vez grandioso por demais, mas essa história não acaba aqui e ainda renderá muitos textos neste livro.

ASSINA MORGANA


 Conheça as obras da autora: 

http://umpensamentovirtual.com.br (este blog)
maze.pag.zip.net
http://clubedeautores.com.br/authors/157692
Face book : /maze.oliveira2
CONTATOS: Email:mazeoliver1@gmail.com


Bjokas no coração!
Maze Oliver





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