MORGANA

Esta página ainda está sendo construída no dia a dia  e  conterá alguns textos do livro MORGANA personagem literário criado por Maze Oliver. Você pode voltar para ver as alterações da revisão e as novidades. Porém, o texto completo você lerá somente no livro.
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       Boa leitura! Maze Oliver

 MORGANA 


  QUEM É MORGANA?

     Por traz do sorriso aberto de pessoa simples mora em Morgana agora e sempre, uma alma sincera, tímida e discreta. Em sua juventude: corpo esbelto, formas femininas perfeitas, bem torneadas, de personalidade inteligente, questionadora e rebelde. Sempre primou pela liberdade responsável de decisão, pela bondade de ajudar a quem precisa, sem olhar a quem, e somou a isso, uma grande vontade de sobreviver.

   Ainda muito jovem em seu frescor juvenil sonhava em escrever muitas memórias, poemas e histórias inventadas ou verdadeiras; divertia-se contando-as primeiramente para si mesma e depois aos amigos e conhecidos. Porém, como menina do interior do Acre e pobre, sabia que isso era apenas um lindo sonho.

  Filha de família simples, amada por seu pai e disciplinada por sua mãe, foi aquela filha sem direito a excesso de carinho e bajulações. Daí logo veio a estranheza ao perceber seus irmãos com mais atenção e carinho de sua  mãe. Ás vezes, a mãe, chegava a ser bruta com Morgana quando precisava lhe corrigir por algum erro ou impor suas vontades. Assim casara-se cedo com o pretexto de sair de casa e ter mais liberdade, mas...





MEMÓRIAS DE MORGANA FADA
CAPÍTULO I

O VESTIDO AZUL DE MORGANA

 VESTIDO PREFERIDO E QUASE ÚNICO!


Imagem apenas  ilustrativa da NET 
   Na sua adolescência morou em vários lugares. Sua família não tinha posses. A mãe uma modelista pobre e o pai, um construtor de casas, nem sempre tinha trabalho. A família deixou a vida na floresta para​ morar na cidade, dando-a assim a oportunidade para que pudesse estudar com mais conforto e qualidade. Ela em sua adolescência estudou em colégio do estado, porém administrado por religiosas e nessa época o seu guarda-roupa era pobre e  simplório.
  Só tinha dois vestidos de festas que sua tia rica, "chicosa", havia lhe doado. A mãe os reformou, recriando modelitos daquela época.Um deles, o preferido, de saia encorpada com tecidos sobrepostos, de cor azul céu! Ela o adorava e o vestia em ocasiões especiais, mas no colégio havia com frequência aqueles dias em que os alunos podiam ir sem uniforme! E nesses dias, aproveitava para vestir seu lindo vestido azul céu,  sentindo-se uma verdadeira princesinha dos reinos das fadas, cenário  das histórias que sua amada avó paterna, contava-lhe quando criança! E no início arrancava muitos olhares curiosos dos rapazolas da escola, pois aos doze anos, era uma linda morena, de cabelos muito lisos e negros (quase azuis), de boca pequena e sorriso radiante, já tinha também um lindo corpo formado que lhe havia gerado o apelido de princesa! Isso porque as princesas possuíam as cinturas muito finas apertadas pelos espartilhos da época dos reinados antigos. Morgana era quase uma miss mirim, só lhe faltava o título. Não entendia muito o apelido, mas não falava nada, ela considerava-se mais para gata borralheira do que princesa, mas isso não importava; sentia-se feliz com os olhares interessados dos rapazitos da escola, alguns até bonitões, mas para quem só tinha dois vestidos para vestir em dias especiais essa história de felicidade não iria muito longe; principalmente porque o colégio era de clientela mista e nele estudavam os filhos da classe média dos bairros adjacentes, os filhos de "doutores" e seringalistas.  Já dá para imaginar que depois de alguns meses ela não teria  outros vestidos para exibir e vivendo numa comunidade consumista, surgiria o primeiro problema.






O CASAMENTO ANTIGAMENTE

      A MÃE DE MORGANA

     Sua mãe Maria de Fátima tinha apenas dezesseis anos quando conheceu seu futuro marido. Ele era um rapaz bonito, alto e namorador. Ela conta até hoje que ele andava léguas e léguas para encontrar-se com uma nova namorada. O cenário da época, eram os seringais da selva amazônica, lugar isolado e longínquo conectados por varadouros, estradinha de terra batida dentro da densa floresta, onde andava-se horas e horas de viagem para se chegar a uma outra colocação (colonia). Local com suas  festas escassas, as moças dessas festas também. Ás vezes dançavam homens com homens por falta de moças. As famílias preservavam suas donzelas pois esperavam encontrar para elas um moço especial, principalmente trabalhador, não podiam expô-las assim  para qualquer aventureiro, principalmente nestas festas caipiras regadas a muita cachaça Cocal e batidas. Muitas vezes aconteciam brigas violentas à facas por disputa de uma parceira de dança.  As casadas eram cuidadas por seus maridos, afinal naqueles confins do mundo, "lá onde Judas perdeu as botas" (ditado popular acreano ou acriano, como queiram), haviam muito mais homens do que mulheres e não podiam correr riscos de perder suas esposas para algum conquistador. O pai de Morgana era um desses, quando solteiro era galanteador, fazia sucesso entre as moças solteiras e até com algumas casadas da redondeza, mas com  a sua mãe, Fátima,  essa muito difícil de conquistar, ele encontrou seu desafio. Primeiro porque ela não gostou dele nem um pouco, achou-o muito alto e prepotente, enxerido, apesar de bonitão.
    A avó de Morgana, Dona Célia, mulher geniosa e personalidade forte e de muitos filhos, claro que desejava casar a filha mais velha. Na época isso era muito comum: os pais arrumarem tudo para o casório das filhas.  Era costume casar as filhas cedo, começando pela primogênita. Ela, a avó de Morgana,  gostara do moço: seringueiro trabalhador, honesto, solteiro. Era um partidão para sua filha. Não que ela, Maria de Fátima, achasse isso. Mas não teve muito tempo para achar nada! Mal piscou, estava noiva. Sua mãe, combinou tudo com o moço. A ela, Fátima,  só teve mesmo o gosto de confirmar. Aceitar casar para fazer os gostos da mãe!
    - Vou casar com esse cabra doido, fazer logo os gostos de minha mãe! Dissera ela.
    Mesmo aceitando o casamento, ela fugia dele e em dois meses que antecederam ao matrimônio, ele roubou-lhe apenas um beijo. Em pouco tempo tudo estava consumado. Dona Fátima casou com um homem que ela mal conhecia. Quase um estranho!
    A casa onde fora morar pequena, mas ela não estava triste não, estava resignada. Pelo menos livrou-se de cuidar daquele monte de irmãos e não tinha mais que fazer comida para aquele montão de gente e mais os trabalhadores do roçado de sua família. Era um batalhão de gente para comer. Dos males o menor, agora sua responsabilidade era com sua casinha e com seu marido. Muito menos trabalho, sem dúvidas!E o amor? Bem esse viria com o tempo...racionalizou; mas, com o tempo vieram mesmo foram  os filhos...um...dois...três...quatro...doze.





 A ÚNICA FOTO INFANTIL 

 DIA  FATÍDICO


     Morgana era muito pequena e não sabe dizer qual idade, mas lembra que sua mãe levou-a na cidade para fazer uma fotografia. Nunca havia tirado uma foto na vida, pelo menos não lembra de ter visto outras fotos que não essa! Principalmente de papel. Havia na época umas fotos que para se ver era através de objeto estranho, chamado monóculo.

      O dia estava calmo. As ruas quase vazias. Devia ser um daqueles dias solitários (como hoje), poucas pessoas na rua, todos em suas casas,  com rádios ligados em programas de mensagens ou músicas das paradas de sucesso. Naquela época, na cidade, mais parecida com uma aldeia, não havia TV. Todos usavam o rádio para espairecer e espantar o tédio.

     Subiram a ladeira; ela, sua mãe e mais alguém, talvez sua avó. Nessa época tinha muito pouco cabelo, só uns fiapinhos como dizia sua mãe. Estava com sua melhor roupinha. Perguntou a mãe onde iam.
      - Onde vamos, mamãe?
     Não deveria ter feito essa pergunta! Sim, porque  a resposta não a agradou muito. Respondeu-lhe que iriam a algum lugar, e que lá cortariam seu dedo, para deixar de ser perguntadeira. Ficou muito assustada e começou a chorar.

     Quando chegaram ao local já não tinha mais lágrimas. Mas careta ela ainda fazia! Ao entrarem, a mãe mandou que ela apontasse o dedo dizendo que havia chegado a hora de cortá-lo. Pediu também que  fizesse pose para a tal fotografia. Assim saiu a sua primeira  foto com cara de choro e de dedo apontado!

     Essa foto esteve com ela durante muito tempo, mas na adolescência ao ouvir a mãe recontar morrendo de rir essa história para uma de suas amigas fofoqueiras, teve um repente de raiva e rasgou a foto em pedacinhos. Ela podia contar a história, mas não teria a prova daquele dia infame! Sua mãe brincara, mas para a menina tudo aquilo era muito dolorido. Assim começou sua rebeldia precoce de juventude, um jeito de defender-se das intempéries do mundo, para vencer e passar por cima dos obstáculos e da mesquinhez dos adultos.

                                                                                 

 

A PRIMEIRA ESCOLA

ESCOLA POLIVALENTE

     Ela era bem pequena, sete anos, na sua infância as crianças entravam na escola com esta idade. Não lembra se a escola era palha, madeira ou tijolo, mas era pequena, uma sala só! A professora também uma só. Não lembra o nome dela, que pena! Sua mãe dissera-lhe que o nome dela era Alice. "Oh Alice, sempre você, de tantas histórias!" Não precisa nem dizer que era na estrada, no aceiro da floresta, na  zona rural. Sim, porque moravam na floresta, numa colonia muito distante da cidade, alguns quilômetros da escola, porém ela gostava muito de ir à aula. Era uma verdadeira aventura!
     Como não podia ir sozinha, os pais a mandavam pra outra colônia dois quilômetros longe, onde morava um tio seu com sua família: A tia Norda e o tio Daniel. Para chegar na tal colônia dos seus tios, a sua avó paterna a levava por dentro da mata, ainda de dia. Esse passeio durava algumas horas e era encantador pois  ouviam o canto dos pássaros na mata. Ela ficava encantada com o som da mata, o canto dos pássaros, tudo lindo demais! A avó  ia falando o nome dos pássaros que iam ouvindo e contando histórias de outros bichos da floresta: de onça, tatu, cobra, falava até dos seres encantados como o Curupira e o Mapinguari e de outros seres encantados da mata. Ela ouvia  tudo com muito interesse e nem tinha medo. Aliás, só tinha medo mesmo era quando seu pai conversando com seus amigos, falava numa tal de reforma agrária, ele dizia que quando ela viesse, iria destruir tudo!  Fazendo rico perder suas terras e que esses  iam fazer de tudo para que ela nunca viesse! Então, a menininha imaginava essa reforma como um monstro enorme e muito feio e que tinha grande força e furor! Quando escutava falar dela, à noite tinha muito medo, custava a dormir,  já que seu pai falava muito sobre isso, pois sonhava em ter um pedacinho de terra seu mesmo, para plantar e para colher.  Nessas noites, cobria-se  pé e cabeça com medo da reforma agrária vir lhe pegar! 
       É que a criança leva ao pé da letra, tudo o que o adulto fala e fantasia o que ouve. Por isso, não podemos conversar coisas sérias na frente de crianças, pois nunca se sabe o que ela irá imaginar! O tempo passou, a menina  cresceu, seu pai faleceu e essa tal reforma agrária nunca veio!
     Ao chegarem na colônia dos seus tios, sua avó voltava pra casa e ela lá ficava, para no outro dia ir com seus primos à vila onde  ficava a escola. Eram vários primos e primas. Quando iam dormir eram muitas as  histórias que ouviam juntos: dos acontecimentos do dia, das peraltices, das caçadas, das pescarias. Então, até a hora de dormir realmente  era uma risadagem só!
     Antes de amanhecer o dia, no primeiro canto do galo já estavam de pé. Tomavam o quebra-jejum (tomar café para o povo  da cidade) com leite tirado da vaca. Suas primas arrumavam os lanches, com farofas de ovos, de carne, de jabá. Tudo ia em latas de leite, essas eram as suas lancheiras! Saíam ainda com escuro, pois a escola era longe! Pegavam a estrada e iam andando, correndo, cantando e conversando.
  Quando chegavam à escola, sempre atrasados, o sol já esquentando o lombo, como dizia seu pai, a professora já estava dando tarefas,  mas eram bem recebidos por conta da distância em que moravam. Foi nessa escola que Morgana  recebeu as primeiras lições e estudou o alfabeto,  ainda na velha cartilha de ABC, tão temida por muitos e criticada hoje pelos pedagogos. Na sala de aula, haviam alunos de várias idades, era uma turma mista, alguns estudavam ainda as letras, enquanto os maiores faziam contas. A professora polivalente, "coitada",  tinha que dar conta de vários conteúdos e  contextos ao mesmo tempo. Hoje ainda existem esse tipo de escola, nos aceiros da floresta,  pelo interior do estado aqui no Acre.
     Na hora do lanche comiam animadamente suas farofas de ovos,  carnes ou bodós e e as onze horas retornavam o caminho de volta pra casa. Ela até hoje recorda uma das brincadeiras que faziam nesse caminho de volta, que era bater numa plantinha que havia na beira de estrada e dizer: 

     - Maria, fecha a porta que teu pai morreu! Diziam eles.

     Surpresa mesmo ficou na primeira vez que viu a planta se fechar todinha,  diante dos seus olhos infantis e  curiosos. Então pensou: as plantas são vivas de verdade, elas se mechem! E os carrapichos? Era uma festa! Brincavam da manja e correndo, os bichinhos grudavam nas suas roupas e até nos cabelos. Mas para aquelas crianças tudo isso era festa, faziam até desenhos, verdadeira arte, com aquelas bolinhas que grudavam nas roupas.
   Chegava em casa já quase ao meio da tarde e pouco tempo depois,  já era hora de voltar de novo com sua avó,  no caminho da mata para a casa de seus tios esperar outra vez  pela aula do dia seguinte. Para sua vida de criança esses foram os melhores momentos com sua avó, horas de aconchego, carinho e amor e ainda  foram  as melhores aventuras que viveu na sua infância, nos confins da floresta da Amazônia.




A VIDA NA COLÔNIA, NEM TUDO ERA FLORES!

OS ESPINHOS DAS ROSAS


Imagem apenas ilustrativa de uma colônia no Acre nos dias atuais


      






   

   Ainda moravam na colônia. Vida simples de gente simples. O dia amanhecia calmo. Acordavam com o canto dos pássaros. Ao redor da casa, as galinhas cacarejavam e os cachorros do pai de Morgana, brincavam de correr atrás de algum animal que encontravam. Logo após o terreiro, a grande mata  de  árvores imensas com suas numerosas copas  verdes  convidavam para um lindo dia de sol. O gorjeio dos pássaros  era a melodia da música que ouviam por horas e tudo transformava-se em paz,  até sua mãe ligar o rádio,  único veículo de comunicação com o mundo exterior.
     Não podia dizer que eram os únicos seres viventes a habitar aquele lugar, porque lá no aceiro da mata ficava a casa do ajudante do seu pai que lá morava com sua mulher e um filho de sete anos. Era o único vizinho. Homem asqueroso, mas brincalhão, de cara e risada estranha e às vezes quando seu pai reunia-se com ele e outros amigos que lá apareciam, a gargalhada dele era a que mais se ouvia, das piadas e graças que contavam na mesa de dominó. Ela tinha medo de ouvir pois lhe parecia mais um gralhar da rasga mortalha anunciando coisa ruim.


Imagem do google - apenas ilustrativa
     
Ela gostava de brincar de casinha com suas latas, garrafinhas e bonecas de pano que sua avó fazia. As garrafinhas viravam utensílios, as tampinhas viravam copos e o dia acabava rápido, pois tudo era imaginação na sua vidinha de criança fantasiosa. O cair da tarde era lindo. O sol descia por traz da mata e caia logo ali no aceiro do terreiro com seus raios coloridos formando um grande leque desenhado no céu.

     Eram nessas tardes  que a menina saia ao terreiro para brincar, mas nesse dia não foi sozinha, chamou o pequeno filho do ajudante de seu pai, o Miguel,  para brincarem na cacimba. Era assim que chamavam o lugar onde sua família pegava água de beber e também para fazer as tarefas domésticas. Foram saltitando pela ladeira do caminho. A vertente ficava lá embaixo do barranco, envolta à árvores e canto de pássaros. De água limpa e cristalina, pois via-se o fundo da vertente por onde brotava a água. Ao redor, o barulho dos pássaros da mata ecoava de vez em quando em seus ouvidos e ficavam brincando de acertar os nomes de cada um deles.
     Nesse clima de paz e harmonia tiveram algumas horas de inocente brincadeira,  até  depararem-se com seu pai de cinto na mão, pois a mãe fazia horas a lhe procurar. Sentiu uma pontada no coração. O pai de Morgana era um homem muito calmo, mas quando ficava bravo, ela tinha medo do grito dele. Seu grito ecoava na sua cabeça e ela estremecia.
        Ele muito sisudo os interpelou, colocando-os numa saia justa. Quem mandou você vir para cá com este menino? Já não sabe que não lhe quero brincando com menino macho?
     Gaguejou assustada, tentou lhe explicar ao seu modo de criança, meio que atrapalhada e com muito esperança de se safar da peia que levaria minutos depois.
    Miguel, o menino do vizinho ficara mudo e com olhos arregalados de susto. Então veio a primeira lapada! Que pegou bem na meio das pernas da menina. E mais uma, mais uma! Saiu correndo e seu pai atrás com o cinto. Ao chegar em casa a mãe e a avó a acudiram, pois sabiam que a cinturãozada dele doía muito. Sua mamãe sempre dizia que ele não sabia bater e sua peia era bastante dolorida. Ah, disso agora ela tinha certeza!
      O que seu pai nunca soube mesmo, foi que ela nesse dia apanhou inocente!
       Na verdade,  quem já havia lhe molestado de verdade e por várias vezes, fora o amigo e vizinho de seu pai, seu  parceiro de dominó, de sua total confiança! "É dolorido  como as famílias muitas vezes deixam de perceber o que acontece com os filhos no dia a dia". Mas isso, o pai de Morgana morreu sem saber! Pois nos seus, seis ou sete anos de idade, não entendia direito o que acontecia. Ao adolescer compreendeu o acorrido e passou a odiar aquele homem asqueroso com todas as forças das suas entranhas, mas com muita  vergonha e principalmente medo do seu pai, guardou em segredo, o triste assédio. Na sua adolescência teve terríveis pesadelos e pensamentos de culpa. Às vezes sentiu nojo de si mesma por ter-se permitido aquelas intimidades.
     Foram muitos anos de terapia, para sentir-se livre da  grande culpa, mas enfim compreendeu que foi apenas uma vítima da  ignorância e da maldade de um ser sem escrúpulos, porém a vergonha carregou em silêncio até a velhice.




PRIMEIRA REBELDIA

O CASTELO

      Sua mãe com pena do itinerário que ela fazia para estudar na colonia, tirou-a da escola e resolveu alfabetizá-la em casa mesmo. No ano seguinte,  mandou-a pra morar na casa de uma prima na pequena cidade. Foi matriculada numa grande escola. Nela estudavam filhos de médicos e seringalistas, ou seja filhos de classe mais abastada.Uma escola de rico. Para ela, um castelo!
      "Ah, porque aquela escola era e ainda é, um palacete". Sua arquitetura protomoderna de  tendências da Art Deco, com características de valorização da simetria e elementos geométricos está vinculada a um conjunto de manifestações artísticas que se propagaram a partir dos anos 20 e tornaram-se muito popular no Brasil, após os anos 30.
     Seus grandes corredores, as muitas salas, os jardins, a capela, toda aquela pompa contribuiu para que a menina  a visse como um lindo "castelo", totalmente ao contrário da sua outra escola, de apenas uma sala com varanda. Não tinha como ela, uma humilde garotinha da floresta (interior), não ficar totalmente deslumbrada. Por isso se pega ainda hoje, mulher adulta, a gostar loucamente de castelos. E quem eram aquelas mulheres? Vestidas com roupas misteriosas que  mostravam  somente o rosto, encantaram-na.
      - Sinto-me uma princesa num lugar de encanto!  Pensou nos primeiros dias de aula. 
       Aquele era enfim o seu castelo!
      Na casa da prima de sua mãe, por sinal próxima à escola,  tudo corria muito bem, exceto na hora da janta. A prima, tinha uma especialidade na cozinha. Sopa de carne desfiada. Ela era convidada à noite para tomar a tal sopa! Gente, a sopa era tão ruim, tão ruim... que ela não conseguia engolir. causava-lhe enjoos! Na verdade, não sabia se era a sopa ruim ou o seu paladar é que não simpatizava com ela. Então ela empurrava o prato! Mas, a prima não aceitava sua recusa e ela...Coitada! Era obrigava a engolir toda a sopa entre enguios, que não esqueceu até hoje! 
     Mas a primeira rebeldia mesmo aconteceu na escola. Ela já sabia ler, mas foi matriculada na alfabetização. Sua professora uma mulher muito bacana e muito dedicada, começou a lhe olhar de lado, porque  não escrevia nada e o caderno estava sempre limpo.    Ao ser questionada sobre o porquê de não fazer as tarefas, respondeu que já sabia de tudo e que não queria escrever.
       Não preciso dizer que as lições eram as repetições das famílias silábicas e que para uma criança que já lê, realmente era um exercício enfadonho e sem a menor motivação.
     Sua mãe foi chamada à escola e ela levou a primeira bronca. Porém, depois desse episódio, veio a parte boa, fizeram um teste com ela e já passou direto para o primeiro ano. De certa forma pode hoje avaliar essa primeira rebeldia como algo positivo pois a conduziu a um avanço de série. A partir daí ficou mais adaptada e mais feliz.




A MUDANÇA DA FAMÍLIA PARA A CIDADE



TEMPOS DE MANGA!

        Anos mais tarde a mãe, Dona Fátima,  resolveu mudar para a vida na cidade. Morgana precisava estudar e a  ela preocupava-se com seu desenvolvimento na escola. A experiência de morar com parentes na cidade não havia dado muito certo. Era preciso pensar em outras possibilidades.

      Seus pais venderam a colônia e retornaram  com a bagagem em um carro de boi. Ela ainda não sabia o que a esperava. Era muito pequena pra avaliar. Gostou da mudança, gostou da cidade. Era um mundo diferente: os carros, as pessoas, as ruas, tudo a fascinava. Tudo era tão diferente da colônia!
    Hospedaram-se na casa de uma parente, enquanto os pais  pretendiam organizar melhor a vida. A Prima Rosa, separou um quarto de sua casa e ficaram lá no aperto, com a bagagem do lado de fora numa espécie de área coberta. Passaram a compartilhar da vida e  das atividades da família hospedeira.
     Seu pai todos os dias saia para procurar trabalho e sua mãe ficava em casa com a filha. A cidade não era lá essas coisas: cidade interiorana do Acre no final da década de  60. A principal atividade econômica ainda era o extrativismo,  porém a exploração da borracha estava  em crise e o homem da zona rural  evadia-se  para a capital,  causando o inchamento e  o início da  formação dos bairros de periferia em Rio Branco.  Foi nesse contexto que seus pais mudaram-se com a esperança de melhorar  a qualidade de suas vidas.
      Em poucos meses Dona Maria de Fátima já mostrava sinais de preocupação; já falava que o dinheiro da venda da colônia se esvaíra. Seu José não conseguiu trabalho e as despesas da casa foram consumindo o dinheiro pouco a pouco. Sem condições, sem emprego, sem casa pra morar e sem dinheiro algum; a fome começou a os assolar, mas era tempo de manga!
     Os pés de mangueiras cheios de frutos espalhados por toda a cidade os salvaram das dores da fome. Sua mãe conta até hoje que teve semanas do café, almoço e jantar serem mangas.
      O pai aprendeu nessa crise o ofício de pedreiro, iniciando como aprendiz, mas logo, logo estava a trabalhar manuseando tijolos, chegando anos mais tarde a ser mestre de obras, uma espécie de chefe do setor da construção. Foi assim que ele sustentou a família nos anos vindouros até sua velhice. Esse pai foi um grande guerreiro. A mãe iniciou na costura para ajudá-lo na grande tarefa de criar os filhos. Foi assim que Morgana cresceu e aprendeu que o trabalho dignifica o homem por mais pobre que ele seja.

 


 A  PRIMEIRA BONECA

 GINA, A LOIRA

      No ano 1964, o Brasil vivia a Ditadura Militar, a crise política afetava todas as áreas. No Acre, em plena mata amazônica, lugar longínquo, era pior ainda. Em Rio Branco, na pequena "aldeia", a capital, o comércio não era lá essas coisas. O centro da cidadezinha à beira do rio Acre, com suas lojinhas, poucas novidades apresentavam. Se hoje, já não possui muitas coisas, imaginem nessa época. 
      Morgana, na sua inocente infância, sonhava com uma boneca de cabelo; sim, porque as que já havia possuído, os cabelos eram​ de plásticos. Os cabelos não, a imitação dos cabelos! Uma boneca assim moderna, era sonho. Mesmo pra outras crianças ricas, era uma novidade. Além de ser muito cara, fora do alcance da situação financeira da sua família, sem contar a dificuldade para  encontrar bonecas assim no comércio local.
      Num passeio com sua mãe e avó, fizeram uma visita que lhe rendeu a realização do seu sonho. Na casa de um rico doutor da cidade, após ouvir​ quieta no seu canto, os adultos conversarem sobre política e se dividirem entre a favor e contra ao golpe no Brasil que também atingiu a política no Acre; não lembra qual a relação dos seus parentes com a família, mas que a conversa fora muito chata, isso ela lembra!
      Ao sair da casa viu uma boneca linda com cabelos loiros e olhos azuis, ao lado do vaso para lixo! E uma ideia lhe veio a cabeça imediatamente. Pedir o brinquedo à sua avó. Porque  não ?! Iria para o lixo! Mas a avó nos seus mais honestos brios, pediu a dona da casa, a boneca. Saiu do local muito feliz levando nos braços o seu sonho. Ela não era bem o brinquedo perfeito para as crianças daquela casa, pois não tinha mais nem braços e nem pernas. Mas, para Morgana, que sonhava com uma princesa daquelas, ela estava perfeita demais.
        Em casa, foi uma verdadeira festa. A avó que sempre a cobriu com mimos o que jamais esquecerá, pois foi para Morgana, toda a referência de carinho e amor que recebeu na infância; depois de lavar e tratar os cabelos da boneca, lhe fez uns braços e umas pernas com panos e um dia aproveitando-se da saída da mãe, fez vários vestidos lindos para ela. Batizaram juntas a princesa loira e brincaram de casinha muitas e muitas vezes. Quem não ficou muito feliz foi a sua mãe, quando descobriu que a avó havia cortado seu vestido de casamento, para costurar as roupinhas da boneca.
       Ela jamais esqueceu a sua linda boneca de cabelos, de nome Gina, suas pernas e braços de panos, nem de longe puderam impedi-la de sonhar e ser feliz, mesmo num tempo de pobreza e total insegurança social e política que viviam na época e que silenciosamente acompanhou, ao ouvir as conversas de seu pai reclamando da renúncia do governador na época, pressionado por pactos e conflitos políticos, não muito diferentes dos quais vivemos hoje.



O  PRIMEIRO NAMORO

UM PRÍNCIPE


      Após alguns meses indo à escola com o mesmo vestido azul, iniciaram as perguntas maldosas das filhinhas de papai que tinham vários guarda-roupas e trocavam-os a cada estação do ano.Cada aula era um verdadeiro desfile de moda, inspiradas nas viagens que faziam de férias com suas famílias ricas.
       - Você não tem outros vestidos??? Vem sempre com este!
     Morgana sentiu-se constrangida e a partir daí, o dia de ir pra escola sem a farda, virou um verdadeiro tormento. Já ia dormir pensando. Então resolveu usar mais o segundo vestido, que era um de estampa miúda, de fundo vermelho, que realçava bem suas curvas.
   Com esse vestido conquistou aos doze anos seu primeiro namorado. Ele era lindo, de cabelos lisos e negros. Um dos garotos mais lindos e mais cobiçados do bairro. De família rica, andava sempre muito bem vestido, um charme! Ela sentiu uma espécie de poder ainda não experimentado! A própria princesa do reino... Não conseguia pensar em outra coisa: 
     - Eu, logo eu, e pensou:  "Consegui marcar um encontro com o garoto mais lindo, mais charmoso! Todas aquelas garotas agora irão ficar com inveja".
   Gente, namoro adolescente realmente atrapalha a escola! Não sabemos nessa idade lidar com as paixões, tudo fica muito maior. Na verdade, paixão é um sentimento difícil de lidar em qualquer idade, convenhamos! E Morgana não conseguiu pensar em mais nada.
     No dia do encontro, que foi num arraial da igreja, tudo estava mais bonito para ela. As barracas enfeitadas com bandeirinhas coloridas. O animador lendo aqueles recadinhos românticos no microfone, tendo como fundo musical os sucessos nordestinos da época. As pessoas passeando, os namorados de mãos dadas. Era junho de 1972, A "aldeia" muito diferente de hoje, não havia a violência desenfreada que vivemos atualmente; as pessoas iam e vinham de seus lazeres com alegria, tranquilas. Ela mesma, foi com uma tia mais nova ao Arraial, sua mãe deixou. A tia, por ser mais nova dois anos, acreditava nos devaneios de Morgana. Na hora em que Joel chegou, a tia foi para a barraca da pescaria.
      Querem saber como foi o encontro?
    Gente, o sonhado namoro durou contados 15 minutos. Lá se foram todos os seus sonhos com beijos, olhares românticos... Sim, na época da sua juventude, os namoros de verdade existiam. Eram só​ beijos e olhares...No máximo, uma ou outra carícia mais indiscreta, do investidor masculino, que eram seguidas de um não bem grande e sonoro por parte da garota!
       A culpa não foi do garoto! E foi, né???
    A garota nunca havia namorado, era marinheira de primeira viagem. Ela primeiramente ficou olhando pra ele.
      - Gente, como era lindo, assim de pertinho! Achara ela. Então ficou muda! Ele começou a falar com ela... Mas encantada,  nem ouvia... Só olhava... Olhava... Olhava... Ele falou muitas coisas.... Esperava responder... Falava mais! 
      -  Como era lindo! Pensava.
     Quanto mais ele falava mais ela achava ele lindo! Ele lhe pediu um beijo! Então ela que estava muda...Virou estátua! Acho que é por isso que gosta de estátuas até hoje! Sabem o que ele fez? Virou as costas para ela e foi embora! Nunca mais olhou na sua cara! Essa foi sua primeira decepção. Mas, de uma coisa agora ela tinha certeza: "na sua aldeia vivia um príncipe."



     
 SENHORA DA VERDADE

 A MÃE, FÁTIMA


      Sua mãe foi a pessoa mais forte, mais corajosa e mais firme que uma pessoa poderia conhecer. Morgana ainda lembra de seus dizeres que ecoam em seus ouvidos!
   Quando ela queria vestir roupas emprestadas de alguém, ela dizia: 
     - Vista as suas! Você tem suas poucas roupas, mas suas!
     Quando lhe respondia, ela falava: 
    - Me respeite! sou sua mãe! Se me responder outra vez, vou dar na sua cara! Serei sua mãe até você morrer! 
     Se pedia algo emprestado, a mãe dizia: 
  -Devolva depois que usar, pois não é seu! Dado é dado! E emprestado, não é dado! 
    Assim aprendeu a respeitar o espaço, o tempo e o lugar do outro.
  Quando queria comprar sapatos e mais sapatos da moda, ela ralhava: 
    - Para que queres tantos sapatos? Se só tens dois pés? Controla tua vaidade, junta teu dinheiro pra uma necessidade. "um homem prevenido vale por dois". 
    Aprendeu com isso a ter o suficiente.
   Nunca deixou-a viver nas casas dos outros. "Quem boa romaria faz que na sua casa está em paz!", "Cachorro que muito anda arranja pulgas para si e para seu dono". E dizia:
   -Pegue um livro, vá ler! 
   Aprendeu assim a selecionar amizades e a envolver-se com leitura para passar o tempo, fugindo das maledicências,  fofocas e tudo mais dessa idade. Foi sendo educada a partir de ditados populares. Isso foi muito interessante e diferente. Alguns até não convém citar, por serem fortes demais!
   - Eu não gosto de mentiras! Fale sempre a verdade, pois "uma mentira sozinha, é capaz de destruir e fazer dúvidas sobre dez verdades!" 
   A partir de princípios rígidos aprendeu a ser honesta, falar a verdade sempre, custe o que custar! Pensar muito bem e pesar as palavras,  para não arrepender depois, pois como ela fala ainda até hoje: "pancada dada e palavra dita, ninguém tira!"
     Acho que essa mãe leu Nietzsche!
     Diante disso, Morgana escreveu em seu diário:
    - Obrigada mãe, por tudo que me ensinou e pela rígida educação que me deu. Isso tornou-me uma pessoa melhor, por saber me colocar no lugar do outro e poder perceber o peso dos julgamentos levianos e inconsequentes. Obrigada e me perdoe se eu não te entendi na minha pouca idade. Não tinha maturidade para tanto. Minha homenagem no mês das Mães! Assina Morgana.

   



SEU VELHO, SEU HERÓI, SEU GUERREIRO!    


O PAI, SEU JOSÉ

     Era uma manhã de sol, Morgana estava em suas tarefas domésticas,  feliz a ouvir música e cantar enquanto lavava as roupas da casa. A canção era no rádio, sucesso da época e que amava ouvir nas  paradas de sucesso, as músicas mais tocadas do momento. O rádio era o objeto de amor de todas as casas, pois não tinham outros tipos de som; as posses eram poucas, na família dela:  o pai pedreiro e a mãe costureira. O que ganhavam mal dava para o sustento da família e as despesas mínimas. Carne? Só comiam no final de semana. Além do mais,  o pai durante o inverno ficava quase sem trabalho e nas fases ruins dele,  era a mãe quem sustentava a prole.
     Ela não sabia que naquele dia sua vida estaria mudada para sempre. Marcada pela dor e pela agonia de sua família, é que seu pai, seu herói e seu guerreiro seria atingido pelas intempéries da vida.
     No portão da casa um apito chamou a atenção. Foi receber e estranhou uma equipe toda de branco e um carro da saúde que chegara a sua porta, à Rua da Melancolia, número mil. Foi gentil, abriu o portão e ofereceu entrada e café. Uma das enfermeiras, talvez a coordenadora da visita, a abordou segura, após sua entrada na sala e com determinação.
      - Já sabe da doença de seu pai, não é mesmo?
    Pega de surpresa e com vergonha por não saber de nada, afirmou com a cabeça que sim. E ela continuou:
     -Ele tem Hanseníase! Mas está já em tratamento. Se tomar direitinho o remédio todos os dias,  não contagia ninguém! Trouxemos o remédio dele, pois há meses que não vai buscar! Queremos examinar a família para ver se tem mais alguém contaminado ou com alguma mancha.
     Seu sangue gelou nas veias! Sentiu quase que desfalecer. Seu paizinho com essa doença tão estigmatizadora na época: os doentes eram geralmente rejeitados, olhados como miseráveis e abandonados por seus amigos. "Não é possível!" Pensou:
   - "Por quê ninguém me contou? Eu já faço faculdade, sou inteligente e boa leitora saberia ajudar minha família a enfrentar essa guerra. Por qual motivo  esconderam-me  algo tão grave?"             Enquanto pensava angustiada,  a enfermeira já fazia seu exame. Ela estava como uma estátua só se movendo a cada solicitação, branca e sem cor nos lábios, pois sentiu que seu sangue fugiu das veias. Felizmente a enfermeira não achou nada no seu corpo. Ficaram de voltar pra examinar as outras pessoas (sua irmã e seu irmão), pois estava sozinha em casa naquele momento.
       Entrou em colapso nervoso! Depois que saíram, chorou muito e ficou aguardando a mãe com seu pai chegarem,  para saber se tinham  algo a lhe explicar.
      Nessa época a medicina já descobrira o remédio para a cura da doença, uma sulfa que estabilizava a moléstia, em poucos meses de tratamento, sem sequelas ou contágios, o tratamento mesmo assim eram de longos anos. Alguns para o  resto da vida. E a doença tinha várias fases e tipos. Então dependendo do estágio e do diagnóstico,  o tratamento era diferenciado.
     No Acre, muitas pessoas haviam sido acometidas e o Estado estava com um trabalho muito bom de combate ao bacilo de Hansen, porém nem tudo era tão simples assim: as pessoas saudáveis não sabiam ainda lidar com essa novidade boa da medicina e a simples mensuração  sobre uma pessoa contaminada com a Lepra (a doença fora conhecida com esse termo pesado e estigmatizador) já lhes geraria uma certa segregação social.
     O motivo: no passado, a saúde isolou os doentes em uma espécie de pousada ou colônia rural, onde ficaram separados da família, sem visitas e muito isolamento.  Por isso nessa época já mais avançada, mesmo  com o tratamento em casa as pessoas ainda tinham muito medo do mal. Talvez por isso seus pais tentaram  protegê-la, escondendo o fato do pai estar acometido. Iniciou aí um novo ciclo na sua vida e um novo desafio, dessa vez grandioso por demais, mas essa história não acaba aqui.




MUDANÇA DE CAMINHO

O NAMORO SÉRIO

    Aos dezessete anos Morgana  entrou para a universidade em  Rio Branco, capital do Estado do Acre, que ainda era nessa época (final de 1974), quase uma "aldeia", uma cidade pacata; os jovens iam e vinham com certa tranqüilidade: passeavam na praça, iam a banhos, bailes, cinemas e festinhas nos finais de semana, porém nem só em passeios pensavam: fazer um curso superior era o grande sonho dos jovens e de suas famílias rio branquenses, pois significava uma chance de ascensão social.
  O prédio da faculdade, no centro da cidade, era pequeno, abrigava apenas cinco cursos: Direito, Letras, Ciências Econômicas, Pedagogia e Matemática. Estava ela no primeiro período de letras. Havia passado no vestibular para a federal em terceiro lugar e havia deixado a família muito feliz. Sua mãe espalhava esse feito para todos os seus conhecidos e essa sua atitude a deixava orgulhosa de certo modo. Até porque não era costume de  mãe elogiar.
   A turma tinha gente muito bacana, poucos rapazes, entre eles um belo negro de uma voz lindíssima. Ela era encantada com a sua voz e com a sua altura. E ele a olhava de um jeito especial. Jovem e graciosa,  encantava os moços com as lindas curvas, apesar de  não ser a moça mais bonita da sala. Afinal, com ela estudava a miss do estado, uma linda moça de formas perfeitas que exibia todos os dias uma nova bonita roupa da moda. Ela era o destaque, pois sua beleza formava um conjunto perfeito: era inteligente, bela e rica. Para ela voltavam-se todos os olhares dos rapazes. A Morgana, faltava o atributo riqueza. E sempre se vestia de forma muito simples.
   Foi nesse contexto que conheceu seu belo futuro ex-marido. Saía da faculdade junto com a tia, pois haviam combinado de irem juntas à praça, quando o avistaram em uma banca de revistas. Ela acabara de fazer 18 anos e encantou-se com o moço  no mesmo instante. Ele era um lindo rapaz em seus 21 anos, traços perfeitos, os olhos claros e a barba fechada completava o clima de mistério que o circundava. A ele foi imediatamente apresentada, pela tia mais nova, que percebeu seus olhares curiosos e convidativos, da parte dele. A partir desse dia  encontravam-se  na praça todos os dias quando ela saia da faculdade. Soube logo que ele não era do lugar, sua família era mineira. Ele morava só, apesar de jovem, era viajado e demonstrava experiência de vida, o que encantou-a pois  amava a liberdade, sonhando sempre em um dia custear as próprias despesas e morar sozinha, após concluir o curso superior. O que não imaginou foi que ao conhecer aquele moço mudaria bastante o caminho da sua vida...





A CASA MELANCÓLICA

  SILÊNCIO E SEGREDO, A CRISE

      A casa de alguém reflete os estágios de felicidade, tristeza e alegria de seus moradores. Lá ficam registradas na memória suas histórias, o crescimento pessoal, o caminho de cada um.  
   Na sua casa melancólica, Morgana guardou consigo as lembranças doces, tristes e principalmente estigmatizadoras.
     A casa era pequena com poucos cômodos para os acomodar: dois quartos,  salinha, varanda, banheiro e cozinha. Fora construída com muito sacrifício por seus pais no meio do terreno, pois na frente a mãe sonhava com um jardim florido e bem cultivado. Quando mudaram não haviam ainda as janelas, pois estava inacabada. Ela então aos dezessete anos, concluindo o ensino médio, já pensava em fazer faculdade,  tinha intenção de se tornar jornalista, mas não foi assim que aconteceu...
     Após descobrir a doença de seu pai, que foi avançando lentamente por conta dele não tomar a medicação indicada pelo médico e aí entra sua mulher e companheira, Dona Fátima,  que não acreditava no diagnóstico e pasmem!  Jogava seus remédios fora. 
        A mãe a cada dia também foi adoecendo. Seu humor que já não era muito bom ficava pior à olhos vistos e sentidos. Ela sofria crises fortes de depressão.  Por muitas vezes ameaçou se matar na frente de todos e os filhos tinham que vê-la naquele sofrimento sem poder ajudá-la. Recusava médicos e remédios.
         O ambiente da casa virou uma melancolia só. Via-se a tristeza em cada canto da casa, uma sombra,  a os espreitar e a os dominar. Sua irmã bem adolescente escondia-se  nas leituras das conhecidas e românticas revistas Sabrina, que ela adorava. E o irmão ainda bem pequeno passava seus dias a correr atrás de pipas, divertindo-se ou fugindo daquele ambiente tenebroso! Ele já grandinho, com certeza entendia muito bem o que estava acontecendo em sua família.
     Sua mãe teve sua primeira grande crise quando o marido ulcerou o corpo, ficando tomado de feridas horríveis. Morriam a cada vez que entravam em seu quarto. O segredo da família foi então a conhecimento de todos. O coração doía de amargura e infelicidade ao vê-lo daquele jeito, quase morto. Essa foi a pior de todas as dores da família. O pai morreu e nasceu várias vezes durante as crises!... E sempre de forma bem dolorosa.
      Dessa vez, após várias crises mais fortes de febre e úlceras que espalharam-se pelo seu corpo transformando-se numa chaga viva e quase única, ele foi finalmente internado em um hospital, por interferência de parentes. Dona Fátima, essa estava completamente em surto. E os filhos menores ficaram em casa chorando sua sorte brutal, aos cuidados de parentes mais distantes. Morgana já então casada, morando em outra cidade, foi chamada às pressas.
      Após esse grave incidente tudo voltou ao normal, Seu José retomou o tratamento, os filhos cresceram, sobreviveram e mudaram de lá anos depois, já casados. A velha casa na Rua da Melancolia, número mil, foi  praticamente abandonada. Ninguém da família quis ir morar lá. As lembranças são muito fortes. A mãe , Dona Fátima a mantém alugada para render-lhe um dinheirinho,  após a morte do marido, já velhinho aos 83 anos e por outra doença, pois da Hanseníase ele ficou totalmente curado.




SOBREVIVÊNCIA A QUALQUER CUSTO!

AINDA SOBRE A CRISE


    Estávamos no ano de 1979. Morgana casada,  grávida e morando num município do Acre; trabalhava com uma livraria. Vivia envolta a livros, cadernos e cadernetas. Lendo muito para passar o tempo, pois tinha dias que não entrava um só ser vivente naquela casa comercial. A cidadezinha era muito pacata e sem opções de lazer. Haviam as casas comerciais, o cinema e a pracinha onde reuniam-se as famílias e os jovens depois da missa de domingo, a sorveteria, os bares, lanches e os restaurantes.

    Nesse período aproveitou para ampliar sua leitura. Estava tendo contato com obras de grandes autores brasileiros: como Jorge Amada, Graciliano Ramos e outros. Viveu alguns meses de intensa leitura dos livros de autores consagrados. Foi uma época muito boa, um ano de vidinha tranquila. Mas dizem que tudo que é bom dura pouco. Recebeu um telefonema de sua tia. O pai havia piorado muito de sua enfermidade, tinha que ir apoiar a sua mãe que também não estava muito bem.

   De volta à capital, a situação que encontrou sua família foi lamentável. A tia que havia vindo de fora do estado para ajudar, estava hospedada em um hotel  e no dia em que chegou foi encontrar-se com Morgana para conversarem sobre a situação de seus pais. De cócoras no canto do sofá, a tia disse que ela deveria tomar conta de seus pais pois ela voltaria à sua cidade. Sua visita durou menos que trinta minutos.

     O velho pai estava há muitos dias acamado, suas crises de febre e feridas pioraram muito nos últimos meses. Não haviam avisado antes pois ela estava grávida e tentaram protegê-la mais uma vez.
  Os irmãos ainda pequenos, estavam a mercê da ajuda de familiares próximos, amigos e da moça que morava na casa com eles. Sua mãe há dias não dormia, não comia e não respondia por ela.
     E foi só aí que vivenciaram os piores dias da vida e sentiram o peso do preconceito sobre a doença de pai. Sabiam dos comentários no bairro, sofreram rejeições de todas as formas: as visitas demoravam pouco,  não sentavam, não bebiam nada que lhes eram oferecidos.
   Depois da chegada de Morgana ela foi visitar seus pais que foram internados, cada um em hospital diferente e ela tomou conta dos  irmãos. E ela mesma conta:
   Seu pai já estava bem melhor com o início da terapia medicamentosa. Ela, a mãe, estava internada num hospital de doentes mentais. Não precisa falar muito sobre  as condições desse hospital, pois até hoje é precário. Na época, o prédio em ruínas, sem nenhuma terapia ocupacional,um ambiente assustador, parecia mais uma prisão para zumbis, devido as condições físicas dos doentes e o prédio cheio de grades. 
      Ao visitar sua mãe, confessou-me que quase morreu por dentro. Vê-la naquele lugar deprimente e nas condições físicas em que estava, foi uma lança atravessando seu coração. Não conteve as lágrimas! Ela veio cambaleante até ela. O olhar não era mais o que ela conhecia. Deu-lhe um abraço bem apertado, para confortá-la. Ela não conseguiria descrever com palavras a emoção daquele momento, mas pode dizer que se sentiu limitada, impotente e com uma angústia do tamanho do mundo. Voltou para casa desnorteada, após a visita.
     No entanto, a internação  durou muito pouco, pois a mãe, apesar de estar doente, era esperta; fugiu do hospital dois dias depois.  A partir daí, ela cuidou da mãe em casa mesmo. Levou-a para sua cidadezinha, para ela espairecer, respirar outros ares, ver outras pessoas. Foi muito difícil: a mãe não dormia e ficava a noite quase toda conversando. Acordava muito cedo, horas dançava, horas cantava e outras horas chorava. Foi preciso perseverar, acreditar e acima de tudo ser muito forte emocionalmente! Um mês depois ela já estava bem melhor. Será que alguém do hospital os procurou para saber se ela realmente  voltara para casa? Nunca!
    Tempos depois que aparentemente tudo passou, sua irmã uma adolescente linda e estudiosa, tentou o suicídio, o irmão criança ainda ficou com problemas na escola e sua mãe desenvolveu uma grave enfermidade que os médicos diagnosticaram muitos anos depois, como Transtorno Bipolar. A irmã aos doze anos, nunca esqueceu o trauma de ver a mãe arrastada contra sua vontade ao ser levada para o hospital. As sequelas deste episódio  e de outros sucessivos ainda perduram até hoje nas suas vidas. Procuram sobreviver a cada dia, superar a cada minuto, ser forte e valente e acima de tudo muito agradecida a Deus por estar hoje com saúde, poder conviver com filhos e netos, pois a vida para alguns, é uma grande batalha a ser vencida, onde só a vencem os corajosos!


 

MEMÓRIAS DE MORGANA FADA 

CAPÍTULO II 





Um comentário:

  1. Rio Branco, 03 de maio de 2019

    Querida Morgana,

    Fiquei imensamente feliz em ler as suas histórias de vida. Confesso que fica difícil saber qual a melhor, a mais emocionante.
    Contudo, me identifiquei com a narrativa do primeiro retrato que você tirou na infância. E fez recordar-me do meu pai. Quando eu tinha 5 anos e ele me levou para tirar um retratinho. Lembro-me que foi no centro de Rio Branco. Era um banquinho de madeira e meu pai ajeitava o meu vestidinho verde bordado o nos bolsos pela minha mãe.
    Ele me arrumou os cabelos penteando-me com carinho. Na verdade, é a única lembrança de carinho e afeto da qual me recordo do meu pai.
    Hoje, ele tem 72 anos e vive calado no seu canto. Eu , também, no meu canto , continuo a minha vida de adulta e, vamos levando em frente , sem falar muito um com o outro mas, as memorias afetivas estão em nossos corações.

    Um abraço para você
    Da amiga e leitora,

    Fatima Cordeiro


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