quinta-feira, 6 de agosto de 2026

CRÔNICA - As estações da mesma árvore

 

Arte da Net

As estações da mesma árvore

Por Maze Oliver

Há dias em que acreditamos ser uma árvore em pleno verão. As folhas dançam ao vento, os frutos amadurecem, os pássaros fazem morada em nossos galhos e até o céu parece conspirar a favor. Então, sem pedir licença, o inverno chega.

E ele nunca bate à porta.

Entra pelos corredores da alma, apaga algumas luzes, dobra nossos joelhos e nos obriga a descobrir se as raízes são mesmo profundas ou apenas bonitas de fotografar.

Às vezes vejo pessoas perguntarem, com um certo espanto:

— Mas você não é psicanalista?

Sou.

E justamente por isso sei que nenhum conhecimento transforma um ser humano em pedra. A teoria não imuniza ninguém contra o sofrimento. Diplomas não suspendem lágrimas. Livros não impedem o coração de estremecer.

Quem cuida da dor alheia também conhece o peso da própria dor.

Nas redes sociais quase sempre aparecemos sorrindo. A fotografia congela um instante de luz, mas nunca revela a tempestade inteira. Há sorrisos sustentados pela mesma coragem com que se sustentam edifícios rachados: de pé por fora, enquanto silenciosamente reorganizam suas colunas por dentro.

Nas últimas semanas a vida resolveu atravessar minha porta vestida de sombra.

Quase perdi minha filha mais nova. Uma cirurgia inesperada, dois dias de UTI, horas que pareciam anos. Hoje, pela infinita misericórdia de Deus, ela se recupera e contempla sua pequenina filha, como quem renasce duas vezes.

Ao mesmo tempo, outros frutos enfrentam a longa travessia da Depressão. E eis um dos maiores paradoxos da minha existência: sou profissional da saúde mental, mas continuo sendo mãe. Posso orientar. Posso acolher. Posso caminhar ao lado. Mas não posso percorrer o caminho por ninguém.

Há dores que nem o amor consegue carregar no lugar do outro.

Talvez seja essa a maior lição da impotência.

A vida nunca prometeu permanência. Ela alterna claridade e eclipse, nascimento e despedida, encontros e ausências. Somos feitos da mesma matéria das marés: avançamos, recuamos, quebramos e voltamos.

Mas confesso...

Há sombras que pesam.

E como pesam.

Carrego cicatrizes antigas. Cresci observando minha mãe lutar contra um transtorno bipolar. Durante muito tempo imaginei que, se estudasse o suficiente, encontraria a chave capaz de libertá-la de seu sofrimento.

Foi essa esperança que me conduziu aos livros da Psicologia, da Psicanálise e ao estudo incansável da mente humana.

Descobri, porém, uma verdade difícil: existem batalhas nas quais o amor não vence sozinho.

E essa descoberta me feriu profundamente.

Durante anos caminhei de mãos dadas com a melancolia. Fiz terapia. Fiz psicanálise. Aprendi a reconhecer seus passos antes que ela batesse à porta. Hoje ela já não governa minha casa, mas ainda conhece o endereço.

Quando a vida desfere golpes mais fortes, ela aparece na esquina da alma, como uma antiga visitante perguntando se ainda pode entrar.

Nem sempre respondo com a mesma firmeza.

E tudo bem.

Porque força nunca significou ausência de fragilidade.

Significou permanecer caminhando apesar dela.

Em 2020 quase perdi meu marido para a COVID-19. Perdi parentes, amigos. Foi uma experiência dolorosa, deixou perdas e traumas. Pensei que a vida já havia me ensinado tudo sobre despedidas. Descobri que ela sempre guarda novas páginas.

Ainda assim...

Continuo acreditando.

Acredito que nenhuma noite convence o sol a desistir de nascer.

Acredito que as árvores aparentemente secas continuam preparando a primavera em silêncio.

Acredito que Deus também trabalha quando nossos olhos já não conseguem enxergar a estrada.

Hoje não escrevo como quem oferece respostas.

Escrevo como quem acende uma pequena lanterna para lembrar que todos nós atravessamos túneis.

Somos feitos de amor e de raiva.

De coragem e de medo.

De fé e de dúvida.

De vitórias e de cansaços.

Somos luz, mas também somos sombra. E não existe vergonha alguma nisso. A árvore não deixa de ser árvore quando perde suas folhas; apenas aprende outra forma de permanecer viva.

Quanto a mim...

Continuarei caminhando.

Ao lado da minha família 

Da psicanálise 

Da minha fé.

Das minhas cicatrizes.

E também da esperança.

Porque aprendi que viver não é escapar das tempestades.

É criar raízes profundas o bastante para que, depois de cada vendaval, ainda seja possível florescer.

 

BIOGRAFIA:

Escritora: cronista, contista, poetisa

Formada em Pedagogia e pós-graduada em Ensino Infantil e Fundamental pela Universidade Federal do Acre (UFAC). Psicanalista Clínica - CBPC 2022-668.

Se você gostou, volte outras vezes.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe aqui sua impressão sobre a postagem. Seja sincero(a), para que eu possa crescer como escritora. Agradeço de coração sua opinião. Volte sempre. Bjs.