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As estações da mesma árvore
Por Maze Oliver
Há dias em que acreditamos ser uma árvore em pleno
verão. As folhas dançam ao vento, os frutos amadurecem, os pássaros fazem
morada em nossos galhos e até o céu parece conspirar a favor. Então, sem pedir
licença, o inverno chega.
E ele nunca bate à porta.
Entra pelos corredores da alma, apaga algumas
luzes, dobra nossos joelhos e nos obriga a descobrir se as raízes são mesmo
profundas ou apenas bonitas de fotografar.
Às vezes vejo pessoas perguntarem, com um certo
espanto:
— Mas você não é psicanalista?
Sou.
E justamente por isso sei que nenhum conhecimento
transforma um ser humano em pedra. A teoria não imuniza ninguém contra o
sofrimento. Diplomas não suspendem lágrimas. Livros não impedem o coração de
estremecer.
Quem cuida da dor alheia também conhece o peso da
própria dor.
Nas redes sociais quase sempre aparecemos sorrindo.
A fotografia congela um instante de luz, mas nunca revela a tempestade inteira.
Há sorrisos sustentados pela mesma coragem com que se sustentam edifícios
rachados: de pé por fora, enquanto silenciosamente reorganizam suas colunas por
dentro.
Nas últimas semanas a vida resolveu atravessar
minha porta vestida de sombra.
Quase perdi minha filha mais nova. Uma cirurgia
inesperada, dois dias de UTI, horas que pareciam anos. Hoje, pela infinita
misericórdia de Deus, ela se recupera e contempla sua pequenina filha, como
quem renasce duas vezes.
Ao mesmo tempo, outros frutos enfrentam a longa
travessia da Depressão. E eis um dos maiores paradoxos da minha existência: sou
profissional da saúde mental, mas continuo sendo mãe. Posso orientar. Posso
acolher. Posso caminhar ao lado. Mas não posso percorrer o caminho por ninguém.
Há dores que nem o amor consegue carregar no lugar
do outro.
Talvez seja essa a maior lição da impotência.
A vida nunca prometeu permanência. Ela alterna
claridade e eclipse, nascimento e despedida, encontros e ausências. Somos
feitos da mesma matéria das marés: avançamos, recuamos, quebramos e voltamos.
Mas confesso...
Há sombras que pesam.
E como pesam.
Carrego cicatrizes antigas. Cresci observando minha
mãe lutar contra um transtorno bipolar. Durante muito tempo imaginei que, se
estudasse o suficiente, encontraria a chave capaz de libertá-la de seu
sofrimento.
Foi essa esperança que me conduziu aos livros da
Psicologia, da Psicanálise e ao estudo incansável da mente humana.
Descobri, porém, uma verdade difícil: existem
batalhas nas quais o amor não vence sozinho.
E essa descoberta me feriu profundamente.
Durante anos caminhei de mãos dadas com a
melancolia. Fiz terapia. Fiz psicanálise. Aprendi a reconhecer seus passos
antes que ela batesse à porta. Hoje ela já não governa minha casa, mas ainda
conhece o endereço.
Quando a vida desfere golpes mais fortes, ela
aparece na esquina da alma, como uma antiga visitante perguntando se ainda pode
entrar.
Nem sempre respondo com a mesma firmeza.
E tudo bem.
Porque força nunca significou ausência de
fragilidade.
Significou permanecer caminhando apesar dela.
Em 2020 quase perdi meu marido para a COVID-19.
Perdi parentes, amigos. Foi uma experiência dolorosa, deixou perdas e traumas.
Pensei que a vida já havia me ensinado tudo sobre despedidas. Descobri que ela
sempre guarda novas páginas.
Ainda assim...
Continuo acreditando.
Acredito que nenhuma noite convence o sol a
desistir de nascer.
Acredito que as árvores aparentemente secas
continuam preparando a primavera em silêncio.
Acredito que Deus também trabalha quando nossos
olhos já não conseguem enxergar a estrada.
Hoje não escrevo como quem oferece respostas.
Escrevo como quem acende uma pequena lanterna para
lembrar que todos nós atravessamos túneis.
Somos feitos de amor e de raiva.
De coragem e de medo.
De fé e de dúvida.
De vitórias e de cansaços.
Somos luz, mas também somos sombra. E não existe
vergonha alguma nisso. A árvore não deixa de ser árvore quando perde suas
folhas; apenas aprende outra forma de permanecer viva.
Quanto a mim...
Continuarei caminhando.
Ao lado da minha família
Da psicanálise
Da minha fé.
Das minhas cicatrizes.
E também da esperança.
Porque aprendi que viver não é escapar das
tempestades.
É criar raízes profundas o bastante para que,
depois de cada vendaval, ainda seja possível florescer.
BIOGRAFIA:
Escritora: cronista,
contista, poetisa
Formada em Pedagogia e
pós-graduada em Ensino Infantil e Fundamental pela Universidade Federal do Acre
(UFAC). Psicanalista Clínica - CBPC 2022-668.
Se você gostou, volte outras vezes.
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