sexta-feira, 25 de maio de 2018

MORGANA FADA - O QUE É ISSO QUE EU ESTOU SENTINDO?- TEXTO 13



DIAS MELANCÓLICOS

     Nesses últimos dias não tenho andado muito bem. Filhos criados, casados, todos em suas casas. Tenho sentido um pouco de solidão. Olhei por várias vezes as fotografias na parede. Tudo me pareceu tão longe... Os tempos vividos, as emoções sentidas em cada sorriso infantil, em cada passeio. Tenho me perguntado: porque as pessoas casam e tem que ir para longe,  morar em outras casas?
     Qual o motivo de não se construir casas grandes, imensas e ficarem todos juntos? Vivendo as alegrias e o dia a dia,  grudadinhos?
     Também não sei por qual razão sinto isso. Talvez tenha herdado a depressão de minha mãe...Ou seja da idade, da saúde, da situação do país... Enfim pode ser tudo junto.
     É... o meu país não anda nada bem. Crise política. Após o impeachment da presidente eleita,  que um  grupo chama de golpe, tudo virou às avessas! Temos até greve dos caminhoneiros! A gasolina subindo duas vezes por semana! Um caos! Estamos em 2018. Brasil é uma verdadeira icognita.
     Mas...Eu estava falando era sobre mim. Então, faz um tempo que ando sentindo-me assim: melancólica, triste. Talvez seja emocional, pois de vez em quando tenho pequenos conflitos familiares, mas quem não os tem? Gostaria de viver sempre em paz! Puxa! Isso não é possível? E os meus netos? Sinto falta deles! Quando estão aqui,  a casa tem mais vida ou eu não tenho tempo para pensar? Afinal estão sempre nos solicitando, interpelando, perguntando... Com os netos tudo é mais colorido, vivo!
Bem, mas o que é isso mesmo que eu estou sentindo?
.
 ASSINA MORGANA

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Maze Oliver

sexta-feira, 18 de maio de 2018

MORGANA FADA - O AMOR DE MINHA MÃE: MEU PAI! - TEXTO 12

O CASAMENTO



     Minha mãe tinha apenas dezessseis anos quando o conheceu. Ele era um rapaz bonito, alto e namorador. Ela conta que ele andava léguas para encontrar-se com uma nova namorada. Galanteador,  fazia sucesso entre as moças da redondeza, mas com  a minha mãe,  essa muito difícil de conquistar, ele encontrou seu desafio.
    Minha avó, mulher de personalidade forte e de muitos filhos, claro que desejava casar a filha mais velha. Na época isso era muito comum: os pais arrumarem tudo para o casório das filhas.  Era costume casar as filhas cedo, começando pela primogênita. Ela,  minha avó,  gostara do moço: trabalhador, honesto, solteiro. Era um partidão para minha mãe. Não que ela, a minha mãe,  achasse isso. Mas não teve muito tempo para achar nada! Mal piscou, estava noiva. Minha avó combinou tudo com o moço. A ela só teve mesmo o gosto de confirmar. Vou casar! Fazer os gostos de minha mãe. Dissera ela.
     Em pouco tempo tudo estava consumado. Minha mãe casada com um homem que ela mal conhecia. Quase um estranho. A casa onde fora morar pequena. Mas ela não estava triste não. Pelo menos se livrara de cuidar daquele monte de irmãos e não tinha mais que fazer comida pra aquele montão de gente. Dos males o menor, agora sua responsabilidade era com sua casinha e com seu marido. Muito menos trabalho, sem dúvidas!E o amor? Bem esse viria com o tempo... Bem, com o tempo mesmo vieram os filhos...um...dois...três...

ASSINA MORGANA




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terça-feira, 8 de maio de 2018

MORGANA FADA - A MUDANÇA PARA A CIDADE - TEXTO 11


TEMPOS DE MANGA!

        Por volta dos meus nove anos minha mãe resolveu retornar para a vida na cidade. Eu precisava estudar e ela preocupava-se com meu desenvolvimento na escola. A experiência de eu morar com parentes na cidade não havia dado muito certo. Era preciso pensar em outras possibilidades.

     Meus pais venderam a colônia e retornamos com a bagagem em um caminhão. Eu ainda não sabia o que me esperava. Era muito pequena pra avaliar. Gostei da mudança, gostava da cidade. Era um mundo diferente: o trânsito, as pessoas, as ruas,  tudo me fascinava. Tudo era tão diferente da colônia!

    Hospedamo-nos na casa  de uma parente, enquanto meus pais organizavam a nossa vida. A Prima,  separou um quarto de sua casa e ficamos lá no aperto, com a bagagem do lado de fora numa espécie de área coberta. Passamos a compartilhar da vida e atividades da família hospedeira.
    Meu pai todos os dias saia para procurar trabalho e minha mãe ficava em casa comigo. A cidade não era lá essas coisas: cidade interiorana do Acre no final da década de  60. A principal atividade econômica ainda era o extrativismo,  porém a exploração da borracha estava  em crise e o homem da zona rural  evadia-se  para a capital,  causando o inchamento e  o início da  formação dos bairros de periferia em Rio Branco.  Foi neste CONTEXTO que meus pais mudaram-se com a esperança de melhorar  a qualidade de nossas vidas.

    Em poucos meses minha mãe já  falava que nosso dinheiro da venda da colônia se esvaiu. Meu pai não conseguiu trabalho e as despesas da casa foram consumindo o dinheiro pouco a pouco. Sem condições, sem emprego, sem casa pra morar e sem dinheiro algum; a fome começou a nos assolar, mas era tempo de manga!

   Os pés de mangueiras cheios de frutos espalhados por toda a cidade nos salvaram das dores da fome. Minha mãe conta até hoje que teve semanas do nosso café, almoço e jantar ser mangas.

     Meu pai aprendeu nessa crise o ofício de pedreiro, iniciando como aprendiz, mas logo, logo estava a trabalhar manuseando tijolos, chegando anos mais tarde a ser Mestre de Obras, uma espécie de chefe do setor da construção. Foi assim que ele sustentou a família nos anos vindouros até sua velhice. Meu pai foi um grande guerreiro. Minha mãe iniciou na costura para ajudá-lo na grande tarefa de me criar e a meus irmãos. Foi assim que cresci e aprendi que o trabalho dignifica o homem por mais pobre que ele seja.

ASSINA MORGANA





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Maze Oliver




quinta-feira, 3 de maio de 2018

MORGANA FADA - RUA DA MELANCOLIA, NÚMERO 100 - TEXTO 10


A CASA MELANCÓLICA


     A casa de alguém reflete os estágios de felicidade, tristeza, alegria de seus moradores. Lá ficam suas histórias, o crescimento pessoal, o caminho de cada um.  Nesse endereço imaginário que recriei na mente,  guardei comigo lembranças doces, tristes e principalmente melancólicas.

     A casa era pequena com cômodos  para nos acomodar: dois quartos,  salinha, varanda, banheiro e cozinha. Fora construída com muito sacrifício por meus pais no meio do terreno, pois na frente minha mãe sonhava com um jardim florido e bem cultivado. Quando mudamos não tinha ainda as janelas, pois estava inacabada. Eu com 17 anos concluindo o ensino médio, já pensava em fazer faculdade de Letras, tinha intenção de virar escritora, mas era só sonho mesmo!

     Após descobrirmos a doença de meu pai, que foi avançando lentamente por conta  dele não tomar a medicação indicada pelo médico (E aí entra sua mulher e companheira, minha mãe,  que não acreditava no diagnóstico e pasmem, jogava seus remédios fora), minha mãe a cada dia também foi adoecendo. Seu humor que já não era muito bom ficava pior à olhos vistos e sentidos. Ela sofria crises fortes de depressão.  Por muitas vezes ameaçou  se matar e nós filhos tínhamos que vê-la naquele sofrimento sem poder ajudá-la. Recusava médicos e remédios.

     O ambiente da casa virou uma melancolia só. Via-se a tristeza em cada canto da casa, uma sombra,  a nos espreitar e a nos dominar. Minha irmã bem adolescente escondia-se  nas leituras das conhecidas e românticas revistas SABRINAS que ela adorava. E meu irmão ainda bem pequeno passava seus dias a correr atrás de pipas divertindo-se ou fugindo daquele ambiente tenebroso! Ele com certeza entendia muito bem  o que estava acontecendo conosco.
     Minha mãe teve sua primeira grande crise quando meu pai ulcerou o corpo, ficando tomado de feridas horríveis. Nós morríamos a cada vez que entrávamos em seu quarto. Meu coração doia de amargura e infelicidade ao vê-lo daquele jeito, quase morto.   Essa foi a pior de todas as dores que vivemos. Meu pai morreu e nasceu várias vezes durante toda a sua vida!... E sempre de forma bem dolorosa.

      Dessa vez,  após várias crises de febre e úlceras que espalharam-se pelo seu corpo transformando-se numa chaga viva e quase única,  ele foi finalmente internado em um hospital. E nós ficamos em casa chorando sua sorte brutal, mas isso já  serão outros textos...

      Nós filhos, crescemos, sobrevivemos e nos mudamos de lá anos depois, já casados. A velha casa na Rua da Melancolia, número 100, está hoje praticamente abandonada. Ninguém da família quer ir morar lá. As lembranças são muito fortes. Mamãe a mantém alugada para render-lhe um dinheirinho,  após a morte de meu pai já velhinho aos 83 anos (e por outra doença, pois da Hanseníase ele ficou totalmente curado).

 ASSINA MORGANA


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