terça-feira, 17 de abril de 2018

MEMÓRIAS DE MARIA - A VIDA NA COLÔNIA, NEM TUDO ERAM FLORES! - TEXTO 7



OS ESPINHOS

      Ainda morávamos na colônia. Vida simples de gente simples. O dia amanhecia calmo. Acordávamos com o canto dos pássaros. Ao redor da casa, as galinhas cacarejavam e os cachorros de papai brincavam de correr atrás de algum animal que encontravam. Logo após o terreiro, a grande mata  de  árvores imensas com suas numerosas copas  verdes nos convidavam para um lindo dia de sol. O gorjeio dos pássaros  era a melodia da música que ouvíamos por horas e tudo transformava-se em paz  até minha mãe ligar o rádio,  único veículo de comunicação com o mundo exterior.
     Não posso dizer que éramos os únicos seres viventes a habitar aquele lugar, porque lá no aceiro da mata ficava a casa do ajudante do meu pai que lá morava com sua mulher e um filho de sete anos. Era nosso único vizinho. Homem brincalhão, de cara e risada estranha e às vezes quando meu pai reunia-se com ele e outros amigos que lá apareciam, a gargalhada dele era a que mais se ouvia, das piadas e graças que contavam na mesa de dominó.
      Eu gostava de brincar de casinha com minhas latas,  garrafinhas e pedaços de pano que minha mãe me dava. As garrafinhas viravam bonecas, as tampinhas viravam copos e o dia acabava rápido, pois tudo era imaginação na minha vida de criança fantasiosa. O cair da tarde era lindo. O sol descia por traz da mata e caia logo ali no aceiro do terreiro com seus raios coloridos formando um grande leque desenhado no céu.
     Eram nessas tardes  que eu saia ao terreiro para brincar, mas nesse dia não fui sozinha, chamei o pequeno filho do ajudante de meu pai para brincarmos na cacimba. Era assim que chamávamos o lugar onde minha família pegava água de beber e também para fazer as tarefas domésticas. A água cristalina, via-se o fundo da vertente por onde brotava a água. Ao redor o barulho dos pássaros da mata ecoava de vez em quando aos nossos ouvidos e ficávamos brincando de acertar os nomes de cada um deles.
     Nesse clima de paz e harmonia tivemos por algumas horas de inocente brincadeira,  até nos deparamos com meu pai de cinto na mão, pois minha mãe fazia horas a me procurar. Senti uma pontada no coração. Meu pai era um homem muito calmo, mas quando ficava bravo, eu tinha medo do grito dele. Seu grito ecoava na minha cabeça e eu estremecia.
    Ele muito sisudo nos interpelou, colocando-nos numa saia justa. Quem mandou você vir para cá com este menino? Já não sabe que não lhe quero brincando com menino macho?
     Gaguejei assustada, tentei lhe explicar ao meu modo de criança, meio que atrapalhada e com muito esperança de me safar da peia que levaria minutos depois.
     Miguel, o menino do vizinho ficara mudo e com olhos arregalados de susto. Então veio a primeira lapada! Que pegou bem na minha perna. E mais uma, mais uma! Saí correndo e meu pai atrás com o cinto. Ao chegar em casa minha mãe e minha avó me acudiram, pois sabiam que a cinturãozada dele doia muito. Mamãe sempre dizia que ele não sabia bater e sua peia era bastante dolorida. Ah, disso agora eu tinha certeza!
      O que meu pai nunca soube foi que eu nesse dia apanhei inocente.
Na verdade,  quem já havia me molestado mesmo e por várias vezes, fora seu amigo e vizinho,  parceiro de dominó, de sua total confiança! É dolorido  como as famílias muitas vezes deixam de perceber o que acontece com os filhos no dia a dia. Mas isso meu pai morreu sem saber! Pois nos meus oito anos de idade eu não entendia direito o que acontecia. Ao adolescer compreendi o acorrido e passei a odiar aquele homem com todas as forças das minhas entranhas, mas com muita  vergonha e principalmente medo do meu pai, guardei em segredo a triste lembrança. Na minha adolescência tive terríveis pesadelos, pensamentos de culpa. Às vezes sentia nojo de mim mesma por ter permitido aquelas intimidades.
     Graças a muitos anos de terapia, hoje sinto-me livre pois compreendi que fui apenas uma vítima da  ignorância e da maldade de um ser sem escrúpulos.

ASSINA MARIA



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Bjokas no coração!
Maze Oliver

terça-feira, 20 de março de 2018

BIOGRAFIA DE MAZE OLIVER


BIOGRAFIA RESUMIDA



      Maze Oliver escritora, contista  e poetisa, nasceu no Estado do Acre. Formada em Orientação Educacional pela Faculdade de Pedagogia da Universidade Federal do Acre, com pós-graduação em Ensino Infantil e Fundamental. Foi presidente da Associação Acreana de Cinema e coordenadora do Centro de Comunicação e Formação da Diocese de Rio Branco. Por muitos anos exerceu a função de coordenadora pedagógica e de ensino em  escolas da rede municipal e  estadual de Rio Branco, onde junto com a  gestão, deu assessoria ao desenvolvimento de  projetos voltados à formação de pequenos leitores. Atualmente é membro fundadora e presidente da Associação Sociedade Literária Acreana entidade que tem como objetivo principal auxiliar jovens escritores.
     Iniciou seus registros escritos em 2011 na internet através deste blog pessoal que lhe oportunizou participar de uma Associação Internacional de Blogueiros de intensa atividade. O registro deste trabalho encontra-se no link. Neste blog.

 http://umpensamentovirtual.blogspot.com   

  Sua primeira obra impressa foi o livro de poemas DEVANEIOS publicado em 2015,  no Clube de Autores pela Editora Sanches.  Participou das antologias  Poetas no Divã e Diário das Almas Femininas ambas da Editora Sanches  e já possui outras obras publicadas: O conto infantil A Poção Mágica (2016). Pretende publicar o livro de poemas Paixões neste ano de 2018. Aguardem!


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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

A CORTE SOCIEDADE LITERÁRIA ACREANA



PARTE DOS INTEGRANTES DA CORTE SLA 

 CORTE SLA  

      Todos nós iremos morrer um dia. Mas nossas memórias podem ficar vivas para sempre, especialmente se escritas. Então, vou contar para vocês, usando a palavra escrita, sobre a memória da Corte SLA.

      No país, vivíamos tempos difíceis, uma política que dava medo. Não sabíamos em quem acreditar. Conhecíamos muitas pessoas desesperançosas, outras brigando por seus lugares, seus cargos, suas posições sociais. Denúncias, notícias de corrupção espalhava-se pelas redes sociais. O maior partido político do país em crise, seus líderes criticados, denunciados e contestados em praça pública.

     Rio Branco, nossa cidade, antes tão pacata, tornou-se violenta, perigosa. A vida social riobranquense noturna perdendo pouco a pouco sua liberdade de ir e vir. A insegurança, o medo tomou conta das ruas, dos becos e das vielas do centro urbano e das periferias. Nosso povo tão hospitaleiro, amigo, “dados” e “puxador” de conversa, agora se fecha em casa atrás de muros, cercas e teme sair à noite. Nosso clima também mudou. Nossas noites frias em que quando crianças dormíamos agasalhados com cobertores, tornou-se exageradamente quentes. Ventilador nenhum dava mais conta de tanto calor?!

       Como sobreviver a tantas mudanças?Frente a esse cenário, eu e um grupo de amigos escritores e artistas decidíamos que precisávamos sobreviver a esse caos! Em conversa, em julho de 2015, surgiu uma esperança, e ela estava em nossa arte, no nosso poder de criação, na nossa imaginação! O que pode nos proteger para que não sucumbamos à crise social e a insegurança em que vivíamos naquele instante e também agora.

      Foi quando inventamos a CORTE SLA. Uma espécie de fuga para o fantástico, para o imaginário, para o lúdico, para o satírico. Criamos para nós um poder fictício. De rir e brincar no caos. Surgiram assim, o rei, a rainha, a bruxa, o palhaço, as fadas, as bailarinas e os dançarinos para alegrar nossa vida, onde cantar, dançar, contar histórias e versalizar nossas dores, dúvidas, frustrações e principalmente potencializar nossa capacidade de fortalecer nossa arte, o que a partir de então passou a ser fonte de vida e de prazer, superando nossas tristezas e agonias. Nesse tempo já estávamos em novembro de 2015, acabava de nascer em Rio Branco, no Acre, a CORTE SLA, para viver além e aquém do seu tempo, misturando passado e presente, na expectativa de sermos felizes, mesmo nesse tempo difícil, nos enchendo de poderes que emanam da imaginação e da arte.

OUTRAS FOTOS DA SLA NO ARQUIVO FOTOGRÁFICO DO BLOG - À SUA DIREITA

 Maze Oliver
                                               

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sábado, 27 de janeiro de 2018

MEMÓRIAS DE MARIA - MINHA ÚNICA FOTO INFANTIL - TEXTO 6

 A ÚNICA FOTO INFANTIL DE QUE ME LEMBRO
Por Maze Oliver

      Eu era muito pequena  e, não sei dizer qual idade, mas lembro que minha mãe me levou  a um estúdio fotográfico. Eu nunca havia tirado uma foto na vida, pelo menos não lembro de ter visto outras fotos  que não essa! Principalmente de papel. Havia na época umas fotos que para se ver era através de monóculo.
      O dia estava calmo. As ruas quase vazias. Devia ser um daqueles feriados, como hoje, poucas pessoas na rua, todos em suas casas,  com rádios ligados em programas de mensagens ou músicas das paradas de sucesso. Nessa época, aqui no Acre não havia TV. Todos usavam o rádio para espairecer e espantar o tédio.
     Subimos a ladeira eu, mamãe e mais alguém, talvez minha avó paterna.       Nessa época eu tinha muito pouco cabelo, só uns "fiapinhos" como bem dizia minha mãe. Estava com minha melhor roupinha. Perguntei a mamãe onde íamos. Não deveria ter feito essa pergunta! Sim,  porque  a resposta não me agradou muito.  Respondeu-me que iríamos a algum lugar e que lá iriam cortar meu dedo, para deixar de ser perguntadeira. Fiquei muito assustada e comecei a chorar.
     Quando chegamos ao local eu já não tinha mais lágrimas. Mas careta eu ainda fazia! Ao entrarmos  mandou que eu apontasse o dedo dizendo ela que havia chegado a hora de cortá-lo. Pediu também que  fizesse pose para a tal fotografia. Assim saiu a minha foto com cara de choro e de dedo apontado!
     Essa foto esteve comigo durante muito tempo, mas na adolescência ao ouvir minha mãe recontar, morrendo de rir,  essa história para uma de suas amigas, tive um repente de raiva e rasguei a foto em pedacinhos. Ela podia contar a história mas, não mais teria a prova daquele dia infame!



     Na verdade o apontar do dedo era para as  medidas  de um anel, pois o local além de estúdio fotográfico era também loja, mas isso não me explicaram, nem depois.


      Minha mãe brincava, mas para mim tudo aquilo era muito dolorido. 



      Assim continuou minha rebeldia adolescente, meu jeito de defender-me das intempéries do mundo para vencer e passar por cima dos obstáculos e das "brincadeirinhas" dos adultos.

ASSINA MARIA
                                                



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