quinta-feira, 16 de agosto de 2018

MORGANA FADA - O PESO DO PRECONCEITO - TEXTO 14


       SOBREVIVÊNCIA A QUALQUER CUSTO!


     Estávamos no ano de 1979. Eu casada,  grávida e morando num município do Acre; trabalhava com uma livraria. Vivia envolta a livros, cadernos e cadernetas. Lendo muito para passar o tempo, pois tinha dias que não entrava um só ser vivente naquela casa comercial. A cidadezinha era muito pacata e sem opções de lazer. Tinham  as casas comerciais, a pracinha onde reuniam-se as famílias e os jovens depois da missa de domingo, a sorveteria, os bares, lanches e os restaurantes.

   Nesse período aproveitei  para ampliar minha leitura. Estava tendo contato com obras de grandes autores brasileiros:  iniciei a leitura dos livros de Jorge Amado, Graciliano Ramos, Machado de Assis e outros. Foi uma época muito boa, um ano de vidinha tranqüila. Mas dizem que tudo que é bom dura pouco. Recebi um telefonema de minha tia. Meu pai havia piorado muito de sua enfermidade, tinha que ir apoiar minha mãe que também não estava muito bem.

    De volta à capital, a situação que encontrei minha família foi lamentável. Minha tia que havia vindo de fora do estado para ajudar, estava hospedada em um hotel  e no dia em que cheguei foi encontrar-me para conversarmos sobre a situação de meus pais. De cócoras no canto do sofá ela me disse que eu deveria tomar conta de meus pais pois ela voltaria à sua cidade. Sua visita durou menos que trinta minutos.

     Meu pai estava há muitos dias acamado, suas crises de febre e feridas pioraram muito nos últimos meses. Não haviam avisado antes pois eu estava grávida e tentaram proteger-me. Meus irmãos ainda pequenos, estavam  a mercê da ajuda de familiares próximos,  amigos e da moça que morava lá em casa. Minha mãe há dias não dormia, não comia e não respondia por ela.  E foi só aí que vivenciamos os piores dias da nossa vida e sentimos o peso do preconceito sobre a doença de nosso pai. Sabíamos dos comentários no bairro, sofremos rejeições de todas as formas: as visitas demoravam pouco,  não sentavam, não bebiam nada que lhes eram oferecidos.

   Depois de minha chegada, fui visitar meus pais que foram internados, cada um em hospital diferente e eu tomei conta de meus irmãos.Meu pai já estava bem melhor com o início da terapia medicamentosa. Ela, minha mãe, estava internada num hospital de doentes mentais. Não preciso falar muito sobre  as condições desse hospital, pois até hoje é precário.Na época, o prédio em ruínas, sem nenhuma terapia ocupacional,um ambiente assustador, parecia mais uma prisão para zumbis, devido as condições físicas dos doentes e o prédio cheio de grades. 

   Ao visitá-la, confesso que quase morri por dentro. Vê-la naquele lugar deprimente e nas condições físicas em que estava, foi uma lança atravessando meu coração. Não contive as lágrimas!Ela veio cambaleante até mim. O olhar não era mais o que eu conhecia. Dei-lhe um abraço bem apertado, para confortá-la. Não consigo descrever com palavras  a emoção daquele momento, mas posso dizer que me senti limitada, impotente e com uma angústia do tamanho do mundo voltei para casa desnorteada, após a visita.

    No entanto, a internação  durou muito pouco, pois minha mãe, apesar de estar doente, era esperta; fugiu do hospital dois dias depois.  A partir daí, eu cuidei dela em casa mesmo. Levei-a para minha cidadezinha, para ela espairecer, respirar outros ares, ver outras pessoas. Foi muito difícil: ela não dormia e ficava a noite quase toda conversando. Acordava muito cedo, horas dançava, horas cantava e outras horas chorava. Foi preciso perseverar, acreditar e acima de tudo ser muito forte emocionalmente! Um mês depois ela já estava bem melhor. Será que alguém do hospital nos procurou para saber se ela realmente  voltara para casa? Nunca!

    Tempos depois que aparentemente tudo passou, minha irmã uma adolescente linda e estudiosa, tentou o suicídio, meu irmão criança ainda, ficou com problemas na escola e minha mãe desenvolveu uma grave enfermidade que os médicos diagnosticaram muitos anos depois, como Transtorno Bipolar. Minha irmã aos doze anos, nunca esqueceu o trauma de ver minha mãe arrastada contra sua vontade ao ser levada para o hospital. As sequelas deste episódio  e de outros sucessivos ainda perduram até hoje nas nossas vidas. Procuro sobreviver a cada dia, superar a cada minuto, ser forte e valente e acima de tudo muito agradecida a Deus por estar hoje com saúde, poder conviver com filhos e netos, pois a vida para alguns, é uma grande batalha a ser vencida, onde só a vencem os corajosos!


ASSINA MORGANA


 

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  Maze Oliver / Bjokas no coração!

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

LEITURA E ESCRITA, INSTRUMENTO DE CIDADANIA!

  Texto republicado

 O processo de aquisição da leitura e da escrita  na escola se constitui como importante instrumento de acesso à cidadania das crianças da periferia. Muitas vezes,  a única oportunidade de transposição de classe social.

   A experiência nos confere afirmar  que as crianças mais pobres enfrentam mais dificuldades para o aprendizado da leitura e da escrita na escola. Um dos motivos é a falta de acesso ao mundo letrado que  atrasa o processo de alfabetização da criança. Quem chega com mais experiência,  sai na frente!   Os pais trabalham o dia inteiro ou não possuem a cultura da leitura. As famílias além de não terem  o hábito de ler, não dispõem de livros, revistas, jornais ou outras fontes de leitura. 

   Muitas vezes, a  fonte privilegiada de informação é a televisão, com contéudo não selecionado,  que atrapalha mais do  que ajuda na educação das crianças.

   Assim sendo, a escola acaba por ser  a oportunidade real de contato com um dos códigos de comunicação,   a leitura e a escrita, importante aquisição para o exercício da cidadania na vida adulta.  Pois instrumentalizadas, pelo código escrito, poderão participar de forma ativa da vida política, social e cultural de sua comunidade, cidade ou país. 
Alunos do Ensino Fundamental do Acre
      
        








   



    Porém,  decifrar  o código somente,  não basta,  precisamos ensinar a  ler as entrelinhas,  o conteúdo que muitas vezes se encontra oculto nos textos. Uma simples histórinha ensina muitas vezes de forma não evidente,  valores, princípios ou conceitos antiquados, carregados de preconceitos.  A escola precisa estar atenta ao que está lendo para suas crianças. Histórias, músicas e  poemas   precisam ser analisados antes de irem para as rotinas didáticas, se é que queremos fazer uma educação diferente. Se não puder trocar,  pode-se fazer a discussão crítica dos textos, com os alunos.


   Uma boa aquisição da leitura e da escrita pode mudar a vida de uma criança. Gostar de ler e de escrever pode ser um refúgio ou uma forma de conhecer o mundo,  sem  mesmo sair da pobreza em que vivem. O mundo fantástico dos variados gêneros textuais, através  das histórias, lendas, contos, crônicas, notícias,  e informações variadas  enfeitarão a vida dessas crianças. Darão fantasia e entusiasmo,  com muitos momentos inesquecíveis de felicidade.  Podendo se constituir no futuro,  um dos  meios de melhorar a qualidade de vida  desses alunos,  através da ascensão social, de uma  forma muito digna.


   Mas,  para que isso se efetue na prática, nós educadores precisamos estudar mais, encontrar novas formas e caminhos para fazer as crianças gostarem de aprender. Evitar as formas mecânicas de ensinar, dar um sentido afetivo a leitura e a escrita na escola. É necessário embarcar na fantasia das crianças. "Pertencer" a esse mundo infantil, "ser criança",  junto com elas, por algumas horas do dia. Desprender-se um pouco da hierarquia de ser professor. 

    Rosa Maria  Torres educadora, linguista, jornalista, ativista social e consultora internacional sobre educação escreveu em seu blog:

http://otra-educacion.blogspot.com.br/2014/12/leer-por-el-gusto-de-leer-la-clave.html

 "Não se trata apenas de ensinar e aprender a ler. Este é ler. E ler com facilidade. 
"Este não é apenas para ler. É também sobre a escrita. E eu faço, também, de bom grado. 
"Para ensinar a ler não só tem que saber ler e aprender a ensinar a ler; você tem que ler.  
"Para ensinar a escrever não só tem que saber escrever e saber ensinar a escrever; você deve escrever.
"Este não é apenas ensinar a ler, mas motivar para a leitura e para criar condições para a leitura independente. "

   E como os pais devem ser parceiros no  processo educativo,  precisamos convidá-los a participar.  Tenho dito a eles: leiam  histórias para seus filhos; perguntem como foi o dia  na escola; brinquem de escola com eles; peçam que sejam seu professor por alguns minutos; tirem pelo menos meia ou uma hora diária  para isso. Você não estará perdendo tempo,  mas ajudando seu filho para a vida toda com esse gesto. 

 Devemos ajudar os pais a compreenderem sua importante tarefa nessa jornada. Mas para isso, é importante também o professor gostar de ler e de escrever,  para poder incentivar os pais e os seus alunos nas atividades do processo de aquisição da leitura e da escrita e principalmente, no gosto por fazê-lo.

Fácil?!... Não! Para a escola pública da periferia é um grande desafio. Existem também outros fatores que também contribuem para o fracasso dessa competência. Mas aí já seria um outro texto!

As crianças agradecem!
   No entanto,  se houver esforço, saberemos que nossas vidas  não foram em vão, que viemos aqui contribuir para um mundo melhor e mais justo.




                            Maze Oliver   /   Bjokas no coração!

      

sexta-feira, 25 de maio de 2018

MORGANA FADA - O QUE É ISSO QUE EU ESTOU SENTINDO?- TEXTO 13



DIAS MELANCÓLICOS

     Nesses últimos dias não tenho andado muito bem. Filhos criados, casados, todos em suas casas. Tenho sentido um pouco de solidão. Olhei por várias vezes as fotografias na parede. Tudo me pareceu tão longe... Os tempos vividos, as emoções sentidas em cada sorriso infantil, em cada passeio. Tenho me perguntado: porque as pessoas casam e tem que ir para longe,  morar em outras casas?
    Qual o motivo de não se construir casas grandes, imensas e ficarem todos juntos? Vivendo as alegrias e o dia a dia,  grudadinhos?
     Também não sei por qual razão sinto isso. Talvez tenha herdado a depressão de minha mãe...Ou seja da idade, da saúde, da situação do país... Enfim pode ser tudo junto.
   É... O meu país não anda nada bem. Crise política! Após o impeachment da presidenta eleita,  que um grande grupo brasileiro chama de golpe, tudo virou às avessas! Temos até greve dos caminhoneiros! A gasolina subindo duas vezes por semana! Um caos! Estamos em 2018. Brasil é uma verdadeira icognita. Acredito que golpe mesmo quem levou foi o povo brasileiro!
     Mas...Eu estava falando era sobre mim. Então, faz um tempo que ando sentindo-me assim: melancólica, triste. Já não leio mais como antes. Nem faço minhas tarefas com animo e alegria; sobre mim se fez um torpor, uma vontade de não fazer nada alguma.  Talvez seja emocional, pois de vez em quando tenho pequenos conflitos familiares, mas quem não os tem? Gostaria de viver sempre em paz! Puxa! Isso não é possível? E os meus netos? Sinto falta deles! Quando estão aqui,  a casa tem mais vida ou eu não tenho tempo para pensar? Afinal estão sempre nos solicitando, interpelando, perguntando... Com os netos tudo é mais colorido, vivo!
       Bem, mas o que é isso mesmo que eu estou sentindo?
.
 ASSINA MORGANA

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 Bjokas no coração, volte outras vezes!
Maze Oliver

sexta-feira, 18 de maio de 2018

MORGANA FADA - O AMOR DE MINHA MÃE: MEU PAI! - TEXTO 12

O CASAMENTO


     Minha mãe tinha apenas dezessseis anos quando o conheceu. Ele era um rapaz bonito, alto e namorador. Ela conta que ele andava léguas para encontrar-se com uma nova namorada. O cenário da época, eram os seringais do Acre, com suas  festas escassas, as moças nessas festas também. As famílias preservavam suas donzelas pois esperavam encontrar para elas um moço especial, principalmente trabalhador, não podiam expô-las assim para qualquer aventureiro, principalmente nestas festas regadas a muita caçhaça Cocal e batidas. Muitas vezes aconteciam brigas violentas por disputa de uma parceira de dança.  As casadas eram cuidadas por seus maridos, afinal naqueles confins haviam muito mais homens e não podiam correr riscos de perder suas esposas para algum conquistador. Meu pai era um desses, galanteador, fazia sucesso entre as solteiras e até com alguma casada da redondeza, mas com  a minha mãe,  essa muito difícil de conquistar, ele encontrou seu desafio. 


    Minha avó, mulher de personalidade forte e de muitos filhos, claro que desejava casar a filha mais velha. Na época isso era muito comum: os pais arrumarem tudo para o casório das filhas.  Era costume casar as filhas cedo, começando pela primogênita. Ela,  minha avó,  gostara do moço: seringueiro trabalhador, honesto, solteiro. Era um partidão para minha mãe. Não que ela, a minha mãe,  achasse isso. Mas não teve muito tempo para achar nada! Mal piscou, estava noiva. Minha avó combinou tudo com o moço. A ela só teve mesmo o gosto de confirmar. Aceito casar para fazer os gostos de minha mãe! Disse ela.

    Mesmo aceitando o casamento, ela fugia dele e em dois meses que antecederam ao matrimônio, ele roubou-lhe apenas um beijo. Em pouco tempo tudo estava consumado. Minha mãe casada com um homem que ela mal conhecia. Quase um estranho. A casa onde fora morar pequena, mas ela não estava triste. Pelo menos livrou-se de cuidar daquele monte de irmãos e não tinha mais que fazer comida pra aquele montão de gente. Dos males o menor, agora sua responsabilidade era com sua casinha e com seu marido. Muito menos trabalho, sem dúvidas!E o amor? Bem esse viria com o tempo... mas, com o tempo vieram mesmo foram  os filhos...um...dois...três...

ASSINA MORGANA




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Maze Oliver